No fim de 2025, uma nova pesquisa reacendeu o interesse em um dos maiores enigmas da história da escrita e trouxe uma pergunta inevitável: o código Naibbe explica o manuscrito Voynich? O estudo não apresentava uma tradução nem revelava o significado oculto do texto, mas chamou atenção por outro motivo. Ele demonstrava que era possível gerar, manualmente, um texto com características estatísticas muito semelhantes às do Voynich usando apenas dados, cartas de baralho e tabelas de substituição.
O autor do estudo é Michael Greshko, jornalista científico especializado em história e ciência. Ao investigar décadas de tentativas fracassadas de decifrar o Voynich, Greshko formulou uma pergunta diferente da maioria: e se o mistério não estivesse no significado do texto, mas na sua produção?
Dessa pergunta surgiu o Naibbe, nome inspirado em um jogo de cartas italiano do século XIV. Greshko não criou o método para decifrar o Voynich, mas para testar uma hipótese incomum: a de que um texto pode parecer profundamente linguístico, organizado e intencional sem necessariamente carregar uma mensagem legível.
A partir daí, manchetes começaram a circular destacando que um novo “código” conseguia reproduzir o comportamento do Voynich. Para muitos leitores, isso soou como um passo em direção à decifração. O que o estudo realmente propõe, no entanto, é algo mais sutil.
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O Manuscrito Voynich desafia pesquisadores há mais de um século porque ocupa um lugar estranho entre ordem e incompreensão.
Seu texto não é aleatório. Ele apresenta padrões claros de repetição, distribuição consistente de símbolos, regras de posição e agrupamentos que lembram palavras. Ao mesmo tempo, nenhuma tentativa de tradução se sustenta quando aplicada ao conjunto do manuscrito. Nenhuma língua conhecida se encaixa de forma estável. Nenhuma cifra clássica resiste à análise prolongada.
Esse contraste cria o paradoxo central do Voynich:
o texto se comporta como linguagem, mas se recusa a ser lido como linguagem.
Foi exatamente esse comportamento que o Naibbe tentou reproduzir.
Como funciona o código Naibbe
O Naibbe parte de um texto comum, como latim ou italiano medieval, e o transforma em algo que não pode ser lido diretamente.
O processo é simples em conceito, mas poderoso em efeito. Um dado determina se o sistema divide o texto em letras simples ou em pares. Em seguida, uma carta de baralho escolhe qual tabela de substituição o sistema utiliza naquele momento. Cada tabela converte esses blocos em glifos artificiais, símbolos inventados que não correspondem diretamente a letras ou sons.
Essas tabelas não são neutras. Elas são ponderadas para que certos glifos apareçam com mais frequência do que outros, imitando a distribuição observada no Voynich real. O resultado final é um texto que parece organizado, coerente e sistemático, mas que não carrega uma mensagem reversível.
O ponto essencial é que o Naibbe não tenta ler o Voynich. Ele tenta imitar o modo como o texto do Voynich se comporta.
Por que o resultado se parece tanto com o Voynich
Os textos gerados pelo Naibbe apresentam semelhanças objetivas com o manuscrito original.
As frequências dos glifos são comparáveis. O comprimento das “palavras” segue padrões parecidos. Há repetições que sugerem regras internas, mas sem correspondência direta entre forma e significado. Para um leitor humano, o texto parece quase legível. Para algoritmos estatísticos, ele se comporta como algo próximo de uma língua real.
Isso ajuda a explicar por que tantas tentativas anteriores chegaram perto de algo reconhecível sem nunca alcançar uma tradução consistente. O texto engana tanto a intuição humana quanto ferramentas computacionais porque o seu criador o projetou para parecer estruturado, não para que alguém o compreendesse.
O que o Naibbe realmente demonstra
O Naibbe demonstra que é possível gerar um texto com aparência linguística complexa sem que esse texto represente uma língua real.
Ele mostra que padrões estatísticos, por si só, não garantem significado. Mostra também que um escriba da época conseguiria executar esse método usando apenas recursos plausíveis para o século XV, sem tecnologia moderna, apenas com regras, tabelas e aleatoriedade controlada.
Isso não resolve o enigma do Voynich, mas enfraquece uma suposição antiga: a de que, por parecer linguagem, o texto precisa esconder uma mensagem profunda a espera de quem a decifre.
O que o Naibbe não demonstra
Ao mesmo tempo, o Naibbe apresenta um alcance limitado.
Ele não prova que alguém criou o manuscrito Voynich com esse método específico. Outros processos podem gerar resultados semelhantes. Ele não demonstra que o texto seja uma farsa deliberada, nem que seja desprovido de qualquer intenção simbólica. E, principalmente, ele não oferece uma chave que permita traduzir o manuscrito.
Nada no Naibbe permite reconstruir um texto original oculto por trás dos glifos.
Como o Naibbe se relaciona com IA e hipóteses linguísticas
Tentativas baseadas em inteligência artificial ou em hipóteses como o hebraico medieval continuam fazendo sentido porque o texto do Voynich realmente apresenta padrões compatíveis com línguas naturais. O Naibbe não contradiz isso. Ele ajuda a entender por que essas abordagens frequentemente “quase funcionam”.
Se um texto foi gerado para imitar comportamento linguístico, algoritmos treinados para detectar linguagem real vão encontrar similaridades. Leitores humanos também vão reconhecer fragmentos que parecem coerentes. Contudo, essa lógica se perde quando tentamos sustentar tais leituras no conjunto da obra.
O Naibbe sugere que esse “quase” não é um erro ocasional, mas uma característica estrutural do texto.
O que muda depois do Naibbe
Durante décadas, a pergunta dominante sobre o Voynich foi:
“qual língua está escondida aqui?”
O Naibbe desloca essa questão para outra:
“que tipo de processo pode gerar um texto assim?”
Essa mudança não encerra o mistério, mas reorganiza o debate. Com isso, o Voynich deixa de ser apenas um problema de tradução e passa a ser também um problema sobre cognição, intencionalidade e engenhosidade humana.
Conclusão
A rigor, ele não decifra o conteúdo do manuscrito. Por outro lado, o Naibbe revela como o autor pode ter criado um texto sem qualquer mensagem legível. Dessa forma, o sistema soluciona o mecanismo de produção, embora preserve o mistério do significado.
O Voynich continua indecifrado. A diferença é que, agora, ele parece menos um objeto impossível e mais um produto plausível de um processo humano cuidadoso, capaz de criar algo que se parece profundamente com linguagem sem jamais se deixar ler.
Referências
Sobre o autor do estudo
Michael Greshko, jornalista científico e autor do estudo que propõe o código Naibbe.
Matéria sobre o código Naibbe e o manuscrito Voynich
Live Science – Mysterious Voynich manuscript may be a cipher, a new study suggests
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