Um mundo que funciona melhor do que deveria

Cena da série Pluribus em que Carol pede ajuda desesperadamente a um enfermeiro infectado para salvar sua namorada, que está morrendo no episódio 1 da primeira temporada.

Pluribus é uma série de ficção científica distópica com forte suspense narrativo e levanta, desde o início, a dúvida sobre se Pluribus vale a pena assistir, ainda que, à primeira vista, se apresente quase como uma utopia funcional. A história parte de um evento global que transforma silenciosamente o mundo: um vírus se espalha em escala planetária e altera profundamente a forma como as pessoas vivem, sentem e se relacionam.

O planeta não entra em colapso. Pelo contrário. Conflitos diminuem, a violência perde espaço e a convivência humana se torna mais estável. A sociedade continua operando, talvez até melhor do que antes. É justamente essa aparência de normalidade que sustenta o tom inquietante da série. O desconforto não vem do caos, mas da eficiência.

A pergunta inicial de Pluribus não é o que deu errado, mas do que a humanidade pode ter aberto mão para alcançar um mundo “perfeito”.

Terminou a série ou ficou com dúvidas?
Pluribus explicada: as maiores perguntas sobre o vírus alienígena, a mente coletiva e ‘Got Milk’

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Que tipo de ficção científica é Pluribus?

Koumba e Carol em Pluribus, sentados em um ambiente sofisticado, representando o contraste entre luxo, prazer e o colapso moral do mundo dos infectados.

Quem espera uma ficção científica explosiva, cheia de ação constante e explicações técnicas detalhadas, pode se frustrar. Pluribus escolhe outro caminho. A ficção científica está presente no plot principal da série. No entanto, fora isso, ela é mais lenta e contemplativa. Ainda assim, se trata de uma contemplação que deixa quem assiste com várias perguntas e buscando entender o máximo que pode nas entrelinhas.

Nesse contexto, o suspense é gerado em torno da narrativa, que lança uma ideia e responde devagar. Ele nasce da observação prolongada, da repetição de comportamentos e da sensação persistente de deslocamento. As cenas são lentas. Os diálogos evitam didatismo, e a série não se apressa em responder às perguntas que ela mesma levanta. Em vez disso, convida o espectador a permanecer no incômodo. Por outro lado, a série explica o que aconteceu com o mundo logo de cara. Ainda assim, a explicação não é suficiente para responder aos detalhes que ficam martelando em nossas cabeças.


Sobre o que a série realmente quer falar

Close de Carol durante um almoço com os não infectados na série Pluribus, evidenciando tensão, vigilância e a divisão social entre grupos.

Por trás da premissa do vírus, Pluribus constrói um debate sobre identidade, coletividade e escolhas éticas em larga escala. A série se pergunta o que acontece quando o atrito humano diminui demais. Quando divergências, conflitos e contradições perdem espaço, o que sobra do indivíduo?

Além disso, a narrativa coloca em tensão duas ideias que raramente caminham juntas: conforto e liberdade. O mundo apresentado não é explicitamente opressor. Ele parece funcional, organizado e emocionalmente mais estável. O problema é que essa estabilidade não vem de graça. Ela existe às custas da individualidade do ser humano.


Ritmo, tom e a experiência de assistir

Carol cercada por infectados em Pluribus, em uma cena que simboliza o primeiro contato direto com a comunidade marginalizada pelo vírus.

O ritmo de Pluribus é contido. Esse ritmo se manifesta em escolhas narrativas bem definidas. A série não corre para avançar a trama nem entrega respostas rápidas. O silêncio tem peso. A repetição parece ter o objetivo de responder, aos poucos, às nossas perguntas. Dessa forma, a cada novo momento vivido pela protagonista, descobrimos um pouco mais dela ou mais sobre o vírus. Além disso, a ausência de um enfrentamento direto entre os infectados e os não infectados faz parte da proposta.

Como consequência, essa escolha pode dividir o público. Para alguns, o ritmo mais lento gera envolvimento e reflexão. Para outros, pode parecer arrastado. Ainda assim, trata-se de uma decisão coerente com o que a série quer explorar: um mundo onde tudo parece calmo, talvez até calmo demais.


Por que Pluribus divide mais do que parece?

Carol investiga os infectados em Pluribus e descobre práticas de canibalismo, revelando o lado mais perturbador da sociedade pós-vírus.

À primeira vista, os números não indicam rejeição. Com nota média de 8,1 no IMDb, Pluribus foi bem recebida pela maioria do público. Ainda assim, a sensação de divisão persiste e aparece menos na média geral do que na forma como essa recepção se distribui ao longo da temporada.

As avaliações por episódio ajudam a explicar isso. A série começa muito bem, perde fôlego no meio, quando o ritmo mais contido se impõe, e recupera parte do entusiasmo no episódio final. Esse movimento se reflete nas discussões online, onde parte do público critica a lentidão e a falta de avanço da trama, enquanto outros defendem exatamente esse ritmo como parte essencial da experiência.

Pluribus é comparada por muitos à série Ruptura, devido à sua narrativa enigmática e ao apelo social que propõe. Mesmo a segunda temporada de Ruptura tendo recebido críticas parecidas, relacionadas ao ritmo mais lento, a série se manteve com uma pontuação de 8,7 no IMDb. Pluribus, por outro lado, ainda enfrenta resistência de quem interpreta sua contemplação como estagnação. Para alguns, episódios soam como filler. Para outros, eles aprofundam atmosfera, ambiguidade e a sensação de impotência da protagonista.

No fim, a série não divide por rejeição majoritária, mas por exigir um tipo específico de engajamento. Ela separa quem aceita uma narrativa mais aberta e sensorial de quem espera progressão constante e recompensas frequentes. Com muitas perguntas ainda em aberto, a conclusão da história tende a ser decisiva para a avaliação final do público.


Para quem a série funciona melhor

Pluribus tende a funcionar melhor para quem:

  • gosta de ficção científica reflexiva

  • aprecia narrativas ambíguas

  • não se incomoda com ritmo mais lento

  • prefere perguntas instigantes a respostas imediatas

Se você valoriza séries que continuam na sua cabeça depois do episódio terminar, há grandes chances de envolvimento.


Para quem talvez não funcione

Por outro lado, a série pode não agradar quem:

  • busca ação constante

  • espera explicações rápidas

  • prefere narrativas aceleradas

  • se frustra com silêncio e ambiguidade

Nesse caso, Pluribus pode parecer distante ou excessivamente contida.


Vale a pena assistir Pluribus?

Koumba jogando em um cassino com infectados na série Pluribus, simbolizando hedonismo, poder e indiferença diante do colapso social.

Se você gosta de histórias que usam a ficção científica como ferramenta para discutir escolhas humanas, Pluribus oferece uma experiência consistente e provocadora. Não é uma série para assistir distraído, nem para maratonar esperando catarse constante.

Ela funciona melhor quando vista com atenção, aceitando que nem tudo será explicado de imediato. Se essa proposta te atrai, vale começar. Caso contrário, talvez seja melhor deixá-la para outro momento.


Uma pergunta que fica

Ao final, Pluribus não insiste em respostas, mas em uma provocação simples: até que ponto um mundo mais funcional continua sendo um mundo desejável? A série deixa essa dúvida no espectador. E talvez essa seja um dos motivos que fazem ela ficar na nossa cabeça.

Se, após assistir, você quiser se aprofundar nos símbolos, dilemas e escolhas da narrativa, há um guia completo com spoilers que pode ser lido aqui:

Onde assistir Pluribus?

Pluribus pode ser assistida na Apple TV+.

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