Em meio ao zumbido repetitivo da rádio UVB-76, um detalhe destoou e chamou atenção de radioescutas ao redor do mundo. Em vez de ruído contínuo ou mensagens codificadas, uma música clássica teria surgido na frequência. Não qualquer música, mas O Lago dos Cisnes.
UVB-76 (The Buzzer) é uma estação de rádio de ondas curtas que transmite principalmente um zumbido contínuo na frequência de 4625 kHz, monitorada há décadas por radioescutas e amplamente associada a comunicações militares russas.
Se você não conhece a estação, descubra mais neste post:
Rádio UVB-76: entenda o zumbido misterioso e como ouvir ao vivo
Transmissões fora do padrão não são raras nesse sinal ao longo dos anos. A UVB-76 já apresentou variações pontuais, com interrupções do ruído contínuo, entradas de voz e alterações técnicas ocasionais. Esses episódios, embora chamem atenção, não são exceções dentro do histórico da estação. Até mesmo a transmissão de O Lago dos Cisnes não é novidade para a UVB-76.
Nos últimos anos, especialmente a partir de 2024 e, mais recentemente, em dezembro de 2025 e janeiro de 2026, essa história voltou a circular com força, impulsionada por novos relatos de transmissões dessa música no sinal da UVB-76.
Neste post, vamos organizar esse assunto com calma. Você vai ver quais datas realmente aparecem nos registros, quais episódios têm base documental e quais se apoiam apenas em relatos de ouvintes. Também vamos entender como essa música passou a simbolizar crises, rupturas e momentos de instabilidade.
A UVB-76 realmente transmitiu O Lago dos Cisnes?
Sim, há um caso bem documentado em que música foi transmitida a partir da infraestrutura da UVB-76. Esse episódio ocorreu em 2 de setembro de 2010, durante testes técnicos relacionados à mudança física dos transmissores da estação.
Por outro lado, fora esse contexto específico, não existem registros técnicos confiáveis que confirmem transmissões oficiais de O Lago dos Cisnes pela UVB-76. O que aparece em outros períodos são registros de música ou áudio na mesma frequência 4625 kHz, sem comprovação clara da origem do sinal.
Essa distinção é essencial. Música ouvida na frequência não implica, necessariamente, uma transmissão da estação. Em ondas curtas, interferências, testes externos e transmissões não autorizadas são tecnicamente possíveis e relativamente comuns.
Dessa forma, a análise dos episódios associados a O Lago dos Cisnes precisa separar um evento documentado de registros posteriores sem autoria confirmada. O foco deixa de ser o significado simbólico da música e passa a ser o contexto técnico de cada ocorrência.
2 de setembro de 2010: o episódio mais bem documentado
O caso mais sólido envolvendo O Lago dos Cisnes está ligado a uma data específica: 2 de setembro de 2010. Naquele período, a frequência passou por dias de instabilidade por um motivo técnico: a estação estava mudando sua sede física de Povarovo para as proximidades de São Petersburgo.
Registros de monitoramento mostram a transmissão de trechos de música durante testes e manutenção do novo transmissor, incluindo O Lago dos Cisnes.
Nesse contexto, não se tratava de programação regular nem de mensagem codificada. Tudo indica que o áudio foi usado como sinal de teste, algo comum em sistemas de transmissão para verificar a qualidade e o alcance do sinal enquanto os engenheiros calibravam os equipamentos.
Por esse motivo, esse episódio aparece documentado em materiais técnicos usados por radioescutas há anos. Não é uma confirmação oficial do governo russo, mas é o caso com melhor sustentação histórica disponível.
Esse período de testes acabou gerando alguns dos registros mais citados até hoje por radioescutas. O áudio abaixo é frequentemente apontado como um exemplo das transmissões musicais ouvidas na frequência da UVB-76 durante a fase de instabilidade de 2010:
Registros posteriores e menções pontuais
Após 2010, surgem referências esparsas a transmissões musicais associadas à UVB-76 em outros períodos, como em fevereiro de 2022. No entanto, essas menções aparecem de forma fragmentada, sem documentação técnica consistente ou consenso entre fontes especializadas.
Na prática, funcionam mais como eco do episódio original do que como novos marcos. Com isso, servem para reforçar a ideia de que a frequência, em momentos raros, pode sair do padrão — mas não sustentam conclusões por conta própria.
Dezembro de 2024: muitas buscas, poucas certezas
Em dezembro de 2024, a UVB-76 voltou ao centro das atenções primeiramente por um aumento incomum no número de mensagens militares reais transmitidas. Quase ao mesmo tempo, começaram a circular relatos associando esse período à transmissão de música clássica.
O ponto central é que os registros técnicos públicos desse mês não confirmam que a música partiu da estação oficial. É aqui que entra o fator moderno do Jamming (interferência). Atualmente, com o avanço dos rádios definidos por software (SDR), tornou-se muito mais acessível para ativistas e radioamadores “atropelarem” o sinal oficial com transmissões piratas, injetando áudios para gerar confusão ou protesto político.
Novembro de 2025 e janeiro de 2026: episódios recentes e autoria incerta
No dia 18 de novembro de 2025 e novamente em janeiro de 2026, novos vídeos voltaram a associar música à frequência da UVB-76. Esses registros vêm quase exclusivamente de livestreams e radioamadores, sem validação técnica independente.
O cenário é semelhante ao de 2024: algo foi ouvido na frequência, mas em um mundo onde o sinal pode ser “falsificado” por transmissores externos, a origem oficial é altamente improvável. Esses episódios são frequentemente interpretados como intervenções de terceiros que utilizam a fama da rádio para ecoar o simbolismo da música clássica.
Vídeos como o abaixo passaram a circular em livestreams e plataformas online, reacendendo a associação entre a UVB-76 e O Lago dos Cisnes, mesmo sem confirmação técnica da origem do sinal:
Por que justamente O Lago dos Cisnes?

Cena do balé O Lago dos Cisnes em Moscou em 1950.
A força dessa história não vem apenas do rádio. Ela vem da cultura e da história russa.
Durante décadas, O Lago dos Cisnes foi usado na televisão estatal soviética em momentos de interrupção da programação, geralmente ligados a crises graves, como a morte de líderes (Brezhnev, Andropov, Chernenko) ou a tentativa de golpe de Estado em 1991. Com o tempo, o balé de Tchaikovsky passou a funcionar como um símbolo informal de ruptura e instabilidade.
Quando essa música aparece associada à UVB-76, a leitura surge quase automaticamente: algo fora do normal estaria acontecendo no centro do poder. Essa associação é compreensível, mas nasce da memória cultural — não de provas técnicas.
Um sinal de crise global?
Essa pergunta aparece com frequência. E ela não surge do nada.
A ideia de que O Lago dos Cisnes indicaria uma crise global é uma herança simbólica, não um protocolo conhecido. No rádio, não há registro de uso da música como alerta estratégico ou gatilho de emergência.
As hipóteses mais discutidas incluem: o uso de áudio como sinal técnico de teste, como em 2010; interferência externa (jamming); ou, menos provável mas não impossível, algum tipo de sinalização interna ainda não compreendida.
Nas redes sociais, essas transmissões são rapidamente associadas a crises políticas ou militares em curso. Sem provas técnicas, é razoável considerar que possam ser coincidência, leituras feitas depois dos acontecimentos ou, eventualmente, algo mais. A questão permanece em aberto, e talvez seja justamente essa incerteza que mantenha o mistério vivo.
O que dá para afirmar sem exagero
Com base nos registros disponíveis, é possível dizer que:
Em 2 de setembro de 2010, houve transmissão de música na frequência durante uma mudança física de transmissores;
Episódios posteriores existem como registros de ouvintes, mas sem confirmação clara da origem do sinal;
A associação com o balé é amplificada por seu peso histórico, transformando exceções técnicas em sinais carregados de significado político.
Conclusão
A história de O Lago dos Cisnes na rádio UVB-76 não é apenas sobre um sinal estranho — é sobre como exceções ganham significado.
Entre registros técnicos, táticas de jamming e memória cultural, o mistério persiste justamente porque nem tudo pode ser confirmado. E talvez seja exatamente essa impossibilidade de resposta definitiva que continua atraindo tanta atenção.
No fim, a UVB-76 permanece fazendo o que sempre fez: transmitir ruído, números e, ocasionalmente, música — deixando que cada ouvinte decida o que isso significa.
Fontes e referências
- Priyom.org – The Buzzer (UVB-76)
Base técnica mais confiável sobre a estação, com histórico, logs e documentação mantida por radioescutas especializados.
https://priyom.org/military-stations/russia/the-buzzer - Priyom.org – Registros de dezembro de 2024
Logs detalhados que embasam o aumento real de atividade no período que gerou o novo pico de buscas.
https://priyom.org/military-stations/russia/the-buzzer/2024/december - The Buzzer Primer (2012)
Documento de referência histórica que reúne análises técnicas, mudanças de padrão e o episódio de 2010, incluindo transmissões fora do padrão.
https://numbersoddities.nl/the_buzzer_primer.pdf - ABC News – O Lago dos Cisnes como símbolo político
Contextualiza o uso histórico do balé como marcador simbólico de crise e ruptura na Rússia e na ex-URSS.
https://abcnews.go.com/International/swan-lake-symbol-protest-russia/story?id=84401801
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